sábado, 30 de junho de 2012

O ELO PERDIDO

O ELO PERDIDO

Frei Betto

Há tempos a ciência investiga o elo perdido entre o macaco e o homem. Já há consenso de que Darwin tinha razão. Até o papa João Paulo II, que não era de dar o braço a torcer, admitiu a pertinência do darwinismo. O que obrigou os bispos da Argentina, adeptos fundamentalistas do criacionismo, a suspender, nas escolas católicas, o ensino de que entre Deus e nós não houve outro intermediário senão Adão e Eva.

Os criacionistas não podem ir além da idéia de um deus oleiro que, tendo brincado com argila e soprado o barro, deu vida às maquetes humanas. Se dessem um passo a mais na genealogia do primeiro casal ficariam encalacrados. Se Adão e Eva tiveram apenas dois filhos machos, Caim e Abel, como se explica essa vasta descendência da qual fazemos parte? Seríamos todos filhos e filhas de um paradisíaco incesto?

Adão e Eva têm a ver com o costume de mandar o chato plantar batatas. Ao encontrar esta expressão em documentos de mil anos atrás, os arqueólogos do ano 3008, desprovidos de maiores explicações, podem ser levados a acreditar que, em nossa época, quando o sujeito se irritava com outro, tratava de mandá-lo cultivar batatas, o que certamente explicaria a abundância deste tubérculo na dieta dos humanos nos primórdios do século XXI...

Como os antigos hebreus não freqüentaram a universidade e, portanto, estavam isentos da linguagem acadêmica, abstrata, em toda a Bíblia não há uma só aula de doutrina ou teologia. Sua linguagem é a do mineiro, à base de "causos". Vê-se o que se lê. A linguagem plástica transforma conceitos em imagens. Assim, o vocábulo hebraico ‘terra’ deu origem a Adão, e ‘vida’ a Eva.

Bem, voltemos ao elo perdido antes que ele também se perca. A Bíblia quer ensinar apenas que Deus é o criador do Universo, incluído os humanos que, embora obra divina, padecem de duas limitações intransponíveis: têm prazo de validade e defeito de fabricação. O que a doutrina cristã chama de pecado original.

Isto é óbvio: todos morrem um dia, malgrado as academias de letras repletas de imortais, e não são poucos os que demonstram grandes defeitos de fabricação - ao longo da vida tornam-se corruptos, mentirosos, oportunistas, segregadores, machistas, cínicos. Em suma, homens sem qualidade, diria Musil. E muitos com uma curiosa tendência para a política.

Quando teria se dado o salto do símio ao humano? No dia em que um macaco utilizou um pedaço de pau como extensão das mãos, como mostra Stanley Kubrick no filme "2001, uma odisséia no espaço?" Ou no dia em que o orangotango decidiu, ao contrário de toda a família zoológica, deixar de comer apenas quando tem fome e marcar hora para as refeições? Teria sido naquela tarde de sábado em que o macaco temperou a caça com pimenta e assou na brasa que restara de uma queimada produzida pelo relâmpago, sem saber que inventava o churrasco?

Um verdadeiro humano seria uma pessoa dotada de criatividade. Quem já viu uma casa de joão-de-barro com uma varandinha ou um puxadinho para abrigar o filho recém-casado? Ocorre que a criatividade é também - e, em geral, sobretudo - um atributo dos bandidos. Talvez seja melhor caracterizar o humano por suas virtudes: uma pessoa generosa, altruísta, ética, solidária, amorosa, capaz de partilhar seus bens e dons. Isso existe?

Se estivermos de acordo que isso ainda é um projeto, uma perspectiva, um sonho, então há que aceitar: o elo perdido entre o macaco e o homem somos nós, essa cadeia de mamíferos que começa com a curiosidade de Adão e Eva, que foram meter o nariz onde não eram chamados, à geração atual contemporânea de Bush e Bin Laden! Aliás, dois bons exemplos da espécie pré-humana que, como os macacos, têm o rabo preso; onde metem os pés criam uma bananosa; e vivem invadindo o espaço alheio.

Nós somos o elo que andava perdido. No entanto, ele sempre esteve na nossa frente. Basta-nos mirar no espelho. O verdadeiramente humano virá no futuro. Isso se adquirirmos um pouco de vergonha na cara. Caso contrário, o próprio elo haverá de se perder e o projeto humano quedará como uma utopia. Talvez realizável em algum outro planeta onde haja abundância disto que tanto falta por aqui: vida inteligente.

Ou quem sabe o Criador decida passar a limpo sua criação pela segunda vez. Duvido que Ele vá destruí-la com um novo dilúvio. A água é, hoje, um bem escasso. Deus é generoso, não perdulário. Talvez o aquecimento global seja o primeiro indício de que tudo haverá de virar cinza. Então um novo Gênesis terá início.

Desconfio que, no sexto dia, Deus criará animais inaptos a desenvolver uma cadeia evolutiva. E, no sétimo, se recostará em sua rede no Jardim do Éden, porque ninguém é de ferro, e contemplará a beleza do Universo - agora livre da ameaça de um perigoso predador descendido dos macacos, o elo entre o que já não é e o que nunca foi.

Autor: Frei Betto - frei dominicano e escritor. Autor de "Sinfonia Universal - a cosmovisão de Teilhard de Chardin" (Ática), entre outros livros.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

SER ÉTICO, SER HERÓI

SER ÉTICO, SER HERÓI

Por Renato Janine*

Quem viu o filme Casa da Rússia, com Sean Connery e Michele Pfeiffer? Numa certa altura, entusiasmado, o editor inglês que é representado por Sean Connery diz: "Hoje, para alguém ser uma pessoa decente, precisa ser herói". É uma frase fortíssima, que muda toda a história que vai acontecer depois – e que por isso mesmo eu não vou contar. Mas quer isso dizer que, hoje, para ser ética, uma pessoa tem que ser heróica? Ficou tão difícil a ética, assim?

É o que ouvimos quase todo dia. Os brasileiros dão muita importância à ética. Dividimos o mundo em gente decente e indecente. Quando algo dá errado, por exemplo, uma política pública, automaticamente se pensa em roubalheira, não em incompetência.

Mesmo os bandidos falam em ética. Na cadeia, punem sem piedade quem abusou sexualmente de crianças ou de mulheres. É comum até um criminoso falar na sua "ética", nos seus valores.

Também, quando tratamos um serviço, é freqüente a pessoa contratada explicar por que ela faz tão bem o seu trabalho e, sobretudo, por que não pratica certas desonestidades que seus colegas (jura ela!) fazem.

Acredite, claro, quem quiser. Mas faz parte do nosso discurso social, da nossa fala com o outro, afirmar: eu sou ético, num mundo em que o resto não o é. Eu sou do bem. O mundo está de pernas para o ar, tudo está errado, mas eu não.

Aqui temos então duas grandes idéias fortes da brasilidade. A primeira é que as coisas em geral não andam bem. A economia nos aperta, a sociedade está complicada, até a amizade e o amor estão em crise. Percebemos bem essa devastação e ela nos incomoda. Mas a segunda idéia é que eu, pessoalmente, ajo bem. Sou honesto.

Serei herói? Aqui é que estão as coisas. Boa parte do auto-elogio (eu sou o único decente num mundo de bandidos) é mentira. Basta ver como termina o serviço do profissional que gabou sua honestidade: tão ruim quanto o dos outros, ou mesmo pior. Então, parece que o personagem da Casa da Rússia tem razão: a ética virou artigo raro. Ser ético é mostrar-se capaz de heroísmo.

Vale a pena então irmos, deste filme recente, baseado num livro de John Le Carré, para a tragédia grega Antígona, que Sófocles escreveu no século V antes de Cristo. Penso que toda reflexão sobre a ética deve começar por ela.

Antígona é filha de Édipo. Dois de seus irmãos lutam pelo poder, e ambos morrem. O trono fica então com seu tio, Creonte, que manda enterrar um dos sobrinhos com todas as honras – e deixar o corpo do outro aos abutres. Antígona não aceita isso. Participa do enterro solene de um irmão e depois sepulta, com os ritos religiosos, o outro, o proscrito.

O rei fica furioso. Está convencido de que é uma conspiração contra ele. Manda descobrir quem violou suas ordens. Ao saber que é a sobrinha, tenta poupá-la: se ela negar que foi ela, ou se pedir desculpas, enfim, ele lhe dá todas as saídas – sob uma condição só, de que ela negue o seu ato. Antígona se recusa e é executada.

Essa história é exemplar. Ela mostra que há um conflito latente entre a ética e a lei. Um governante dá ordens. Estas podem ser legítimas ou não. Creonte fez o que não devia, moralmente, mas é ele quem manda. A lei está com ele. Neste caso, o que fazer?

Vou passar a um caso relativamente recente. Um tempo atrás, eu estava na França, quando um homem morreu na calçada, em frente de uma farmácia, sem que ninguém o acudisse. O farmacêutico explicou: se tocasse no outro, se tornaria responsável por ele. Só um médico poderia fazê-lo. Descobriu-se, porém, que bastaria um remédio simples para salvar o rapaz da morte. O que fazer?

Assisti então a um amplo debate. Foi sugerida uma mudança na lei, para que as pessoas pudessem acudir a seus próximos sem serem processadas, quando agissem de boa fé. Também se propôs um sistema de atendimento mais rápido das emergências. Mas quem, a meu ver, resolveu a questão foi um jornalista, que disse mais ou menos o seguinte:

- Se precisarmos de uma lei que autorize as pessoas a agirem humanamente, a socorrerem os outros sem pensar nos castigos e riscos que correm, não estará tudo perdido? Porque nunca as leis vão prever todos os casos. Sempre, para alguém agir bem, de maneira ética, em solidariedade com os outros, haverá um terreno incerto, um espaço que pode até ser ilegal.

- Precisamos de uma lei nos permitindo ser decentes? continuou ele. Ou deveremos estar preparados para correr os riscos, até mesmo de sermos presos, quando um valor mais alto se erguer, o valor do respeito do outro?

É este o heroísmo de que falava o personagem da Casa da Rússia. É este o heroísmo que Antígona praticou. E ele exige que, às vezes, estejamos dispostos a infringir a própria lei, a desobedecer às regras, quando for em nome de um valor superior. Em nosso mundo, este valor mais elevado pode ser, antes de mais nada, a vida de alguém. Aliás, costuma haver polêmica sobre o chamado "furto por necessidade", quando um esfomeado furta comida para sobreviver: isso não é um crime.

Mas as coisas podem ir mais longe. Maria Rita Kehl elogiou em um artigo , o líder dos sem-terra João Pedro Stédile. O que vale mais, a lei de propriedade da terra, que perpetua uma exclusão social enorme, ou o direito das pessoas a viver, e acrescento, a viver dignamente? Do ponto de vista ético, é claro que vale mais o direito à vida digna.

Nem sempre foi assim. Um pregador puritano inglês do século 17, Richard Baxter, tem uma frase horrorosa. Na época, enforcava-se quem roubasse um pedaço de pão. Ele justifica isso: a vida dos pobres, explica, não vale grande coisa, ao passo que o atentado à propriedade destruiria os fundamentos da própria sociedade.

Não há consenso a este respeito. Uns defendem os sem-terra, outros os atacam. Mas o que quero levantar aqui é algo mais forte: é que a ética e a lei não coincidem necessariamente. Muitas vezes, ser decente exige romper com a lei. Foi assim sob o nazismo e sob todas as formas de ditadura. É assim também quando a desigualdade ou a injustiça impera.

Aí, sim, o ser humano precisa ser heróico. Porque violar a lei, mesmo que seja por um valor moral relevante, significa sofrer as penas da lei. Numa sociedade decente, imagino que o juiz não mandará para a cadeia quem infringiu as normas legais devido a valores morais mais altos, como os que citei. Mas não há garantia nenhuma disso. Pode ser que a pessoa seja punida, mesmo.

E é importante insistir nisso. O que queremos nós: cidadãos obedientes à lei, a qualquer lei, ou sujeitos éticos, decentes? O ideal é juntar as duas coisas. Mas, na educação, devemos apostar na autonomia, isto é, na formação de pessoas que sejam capazes de decidir por si próprias. O que significa que, em casos raros e extremos, elas tenham a coragem de enfrentar o consenso social e suportar as conseqüências de seus atos.

Isso, para terminar, pode fazer de qualquer um de nós um pequeno herói. O heroísmo não está só nas personagens da mitologia grega ou nos super-heróis da TV. Ele pode estar presente quando cada um de nós enfrenta uma pequena prepotência, em nome de um valor mais alto – desde, claro, que arque com os resultados de sua ação e que além disso lembre que é falível e pode estar errado. Mas é desses pequenos heroísmos pessoais que depende a dignidade humana.



*Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. É autor de "A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil" (2000, Prêmio Jabuti de 2001) e "A universidade e a vida atual - Fellini não via filmes" (2003).

O ALCORÃO ENSINA A VIOLÊNCIA?



O ALCORÃO ENSINA A VIOLÊNCIA?
Pergunta:

Espero que os estudiosos me tirem da confusão em que me encontro desde os acontecimentos de 11 de setembro, principalmente no que diz respeito a alguns versículos alcorânicos. Esses versículos contradizem inteiramente o que os muçulmnaos dizem a respeito de sua religião, que é uma religião de paz que condena a violência. Embora não seja um muçulmano, não odeio os muçulmanos. Só preciso um pouco de esclarecimento a respeito dessas questões. Como os senhores interpretariam um versículo que diz "Matai-os onde quer que os encontreis"? (al-Bacara 191) e ..."Mas, se se rebelarem, capturai-os então, matai-os, onde quer que os acheis, e não tomeis a nenhum deles por amigo ou socorredor."? (an-Nisá 89) Muito apreciaria uma resposta rápida.

Resposta

Em nome de Allah, o Clemente, o Misericordioso

Todos os louvores e agradecimentos são devidos a Allah e que a paz e a bênção estejam com seu Mensageiro.

Obrigado pela pergunta que você colocou, é muito interessante e é por isto que também tentarei fazer o melhor para fornecer-lhe a resposta adequada.

Quando nós, os muçulmanos, declaramos que o Islam é uma religião de paz, não estamos tentanto provar algo que seja absurdo ou querendo resolver um quebra-cabeça. Pelo contrário, estamos apenas afirmando um fato que se fundamenta em provas inquestionáveis e evidências muito claras. Ainda que não precisemos declarar este fato, pois o Islam é, em si, auto-explicativo, no que se refere ao seu significado, seus nobres ensinamentos e o cerne de sua mensagem transmitida pelos Profetas de Allah, enviados à humanidade.

Para esclarecer um pouco mais esta questão, aqui está a declaração feita pelo Dr. Muzammil H. Siddiqi, diretor da Sociedade Islâmica do Condado de Orange, e presidente da Sociedade da América do Norte, ao responder a questão semelhante:

"Agradeço as palavras gentis de que você não odeia os muçulmanos. O ódio não é bom para ninguém. Quero assegurar que nós muçulmanos também não odiamos os não muçulmanos, sejam cristãos, judeus, hindus, budistas ou seguidores de qualquer outra religião, ou que não tenham religião. Nossa religião não permite a morte de qualquer pessoa inocente, qualquer que seja sua religião. A vida de todos os seres humanos é santificada, de acordo com os ensinamentos do Alcorão e a orientação de nosso abençoado Profeta Mohammad, que a paz esteja com ele e com todos os profetas e mensageiros de Allah.

Sobre a proibição de matar, diz o Alcorão: "... Não tireis a vida que Allah tornou sagrada, senão sob a forma da lei e da justiça: eis o que Ele vos ordena, para que raciocineis." (al-An'am 151) e diz Allah no Alcorão: "Nem tireis a vida que Allah tornou sagrada, senão por uma justa causa. E se alguém for morto injustamente, facultamos ao seu parente a represália (exigir qisas ou perdoar): porém que não se exceda na vinganaça, porque ele está auxiliado (pela lei)". (al-Isrá 33). De acordo com Alcorão, matar uma pessoa sem justa causa é um grande pecado, como se matasse toda a humanidade, assim como salvar a vida de uma pessoa é uma boa ação que corresponde a salvar toda a humanidade (ver al-Máida 32)

Contudo, sua pergunta é válida, então, por que o Alcorão diz "matai-os sempre que os encontrar ...", conforme mencionado nas suratas al-Bácara:191 e an-Nisá:89? A resposta é simples, você deve ler esses versículos em todo seu contexto histórico e textual. Você deve ler todo o versículo e melhor ainda é ler alguns versículos antes e outros depois. Leia todo o texto e veja o que está dito:

"Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não estima os agressores. Matai-os onde quer se os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo dos incrédulos. Porém, se desistirem, sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo. E combatei-os até terminar a perseguição e prevalecer a religião de Deus. Porém, se desistirem, não haverá mais hostilidades, senão contra os iníquos. Se vos atacarem um mês sagrado, combatei-os no mesmo mês, e todas as profanações serão castigadas com a pena de talião. A quem vos agredir, rechaçai-o, da mesma forma; porém, temei a Deus e sabei que Ele está com os que O temem." (al-Bácara 190-4)

Quanto à sua segunda citação, leia também o texto completo:

"Anseiam (os hipócritas) que renegueis, como renegaram eles, para que sejais todos iguais. Não tomeis a nenhum deles por confidente, até que tenham migrado pela causa de Deus. Porém, se se rebelarem, capturai-os então, matai-os, onde quer que os acheis, e não tomeis a nenhum deles por confidente nem por socorredor. Exceto àqueles que se refugiarem em um povo, entre o qual e vós exista uma aliança, ou os que, apresentando-se a vós, estejam em dúvida quanto ao combater-vos ou combater a sua própria gente. Se Deus tivesse querido, tê-los-ia feito prevalecer sobre vós e, seguramente, ter-vos-iam combatido; porém, se eles se retirarem, não vos combaterem e vos propuserem a paz, sabei que Deus não vos faculta combatê-los. Encontrareis outros que intentarão ganhar a vossa confiança, bem como a de seu povo. Toda a vez que forem chamados à intriga, nela sucumbirão. Se não ficarem neutros, em relação a vós, nem vos propuserem a paz, nem tampouco contiverem as suas mãos, capturai-os e matai-os, onde quer que os acheis, porque sobre isto vos concedemos autoridade absoluta." (an-Nisá 89-91)

Agora, diga-me honestamente, estes versículos dão permissão para se matar livremente qualquer um em qualquer lugar? Esses versículos foram revelados por Allah ao Profeta Mohammad, que a paz esteja com ele, na época em que os muçulmanos vinham sendo atacados constantemente pelos não muçulmanos de Meca. Eles estavam aterrorizando a comunidade muçulmana de Medina. Pode-se dizer, usando o jargão contemporâneo, que havia constantes ataques terroristas a Medina e, nesta situação, os muçulmanos tinham a permissão de combater os "terroristas". Esses versículos não significam uma permissão para a prática do "terrorismo", mas são uma advertência aos "terroristas. Porém, mesmo nessas advertências,você pode perceber como a moderação e o cuidado são bastante ressaltados.

É importante que estudemos os textos religiosos dentro de seu contexto. Quando estes textos não são lidos dentro dos contextos histórico e textual, eles são manipulados e distorcidos. É verdade que alguns muçulmanos manipulam esses versículos para alcançar objetivos particulares. Mas isto acontece não só com os textos islâmicos, mas, também com textos de outras religiões. Posso citar dezenas de versículos da Bíblia que parecem violentos se tomados isolados de seu contexto histórico. Esses textos bíblicos foram usados por muitos grupos judaicos e cristãos. Os cruzados os usaram contra muçulmanos e judeus. Os nazistas os usaram contra os judeus. Recentemente, os cristãos sérvios os usaram contra os muçulmanos bósnios. Os sionistas os estão usando regularmente contra os palestinos.

Citarei alguns versículos do Velho e do Novo Testamentos e depois me diga o que você diria a respeito deles:

"Quando o SENHOR vosso Deus vos introduz na terra que estais prestes a possuir, e vos livra das várias nações que vos antecederam, os hititas e os girgashitas e os amoritas e os cananeus e os perizitas e os hivitas e os jebusitas, sete nações maiores e mais fortes do que vós. E quando o SENHOR vosso Deus os despacha e os derrota antes de vós, então vós os destruireis completamente. Não fareis pacto algum com eles e não tendes misericórdia deles. (Deuteronômio 7:1-2)

"Quando vos aproximardes da cidade para combatê-la, oferecei vossos termos de paz. Se eles concordarem em fazer a paz convosco e vos franquearem a cidade, então todas as pessoas que nela se encontrarem tornar-se-ão escravos e vos servirão. No entanto, se não aceitarem a paz convosco e preferirem a guerra contra vós, então cerque-os. Quando o SENHOR vosso Deus permitir, esmague todos os homens com o fio da espada. Somente as mulheres e as crianças e os animais e tudo o que estiver na cidade, todos os seus espólios, serão tomados como despojos de guerra por vós; e vós usareis os espólios de vossos inimigos que o SENHOR vosso Deus vos agraciou ... Somente nas cidades dessas pessoas que o SENHOR vosso Deus está vos concedendo como herança, nada que respire será deixado vivo." (Deuteronômio 20:10-17)

"Agora, portanto, matai todo macho entre os pequenos e matai toda mulher que tenha conhecido um homem intimamente. Mas todas as meninas que não conheceram um homem intimamente, poupe-as para vós." (Números 31:17-18)


Até no Novo Testamento nós lemos a seguinte afirmação atribuída a Jesus feita a seus discípulos:

"Pois eu vos digo que a qualquer que tiver ser-lhe-á dado mas ao que não tiver, até o que tem lhe será tirado. E, quanto aos meus inimigos, que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui e matai-os na minha presença." (Lucas 19:26-27)

Allah, Todo Poderoso, sabe melhor.

Mufti Muzammil Siddiqi

Extraído, com pequenas modificações de http://pakistanlink.com/religion.html